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Arquivo de entrevistas
Chat com Lezíro Marques Silva
(1º/11/2000)


Moderador10:29:14
LezíroLezíro Marques Silva
Formado pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em engenharia sanitária pela Arizon State University, dos EUA, o geólogo Lezíro Marques Silva desde 1970 dedica-se a pesquisas sobre a poluição ambiental e contaminação da água subterrânea, principalmente pelo líquido resultante da decomposição de cadáveres. Professor da Universidade São Judas Tadeu, na capital paulista, Silva acredita que é possível acabar com o problema utilizando catalizadores para a decomposição rápida, segura e total dos cadáveres e a desinfecção do subsolo nas áreas ocupadas por cemitérios.


Moderador20:14:59
Marina pergunta: Muito já se falou sobre esse tema. O que o senhor realmente traz de novo???


Moderador20:15:04
Anônimo pergunta: Professor, boa noite. Como é isso de cemitério poluir a água?


Moderador20:16:42
João Paulo diz: Mesmo com os túmulos revestidos de concreto há o perigo do líquido cadavérico vazar para o lençol freático?


Lezíro20:18:07
Marina: O que eu trago de novo é uma definição técnica e científica do problema, que desde a idade média'existem registro históricos como por exemplo a Peste Negra. E o que trazemos de novo é um estudo criterioso a luz do conhecimento científico atual, em que nós fomos investigar a fundo o problema tanto do ponto de vista qualitativo quanto quantitativo, Sempre foi um ponto obscuro a interação do cadáver sepultado com o meio geológico.


Moderador20:20:14
Anônimo pergunta: Como deve ser protegido um túmulo?


Moderador20:20:21
chapirous pergunta: Quando a solução para esse problema será colocada em prática ???


Moderador20:20:58
JanePR pergunta: É verdade que temos esse problema em muitos cemitérios aqui no Paraná?


Lezíro20:21:00
Anônimo: É o seguinte, um cadáver não deixa de ser um resíduo sólido constituído por matéria orgânica, o qual no processo de decomposição gera vetores contaminantes capazes de trazer problemas para a saúde humana. É evidente que o processo de decomposição é natural, que não se pode permitir é que os produtos derivados dessa decomposição, incluindo os microorganismos possam atingir o lençol freático e daí ingressar em um organismo e causar doenças.


Lezíro20:22:54
João Paulo: O simples fato de um túmulo ser revestido de concreto não implica que seja impermeável. Há a necessidade de que esse concreto seja aditivado por produtos impermeabilizantes e que dificultarão a saída do liquido cadavérico e seu conteúdo microorgânico.


Lezíro20:24:01
Anônimo: Um túmulo deve ser construído e mantido com cuidados especiais de conter no seu interior o liquido funerário, o qual naturalmente secará e será neutralizado.


Lezíro20:25:29
chapirous: Se dependesse de nós técnicos já estaria implementada dado o potencial de periculosidade envolvendo a saúde pública. Todavia, como tudo nesse país existem componentes de natureza política, educacional, social econômica e até religiosa.


Moderador20:26:25
elma pergunta: Professor, acha importante o monitoramento das águas subterrâneas dos cemitérios?


Moderador20:26:30
LUCIANO pergunta: É MESMO POSSÍVEL A CONTAMINAÇÃO DAS ÁGUAS?


Lezíro20:27:59
JanePR: Sim e isso não é um privilégio do estado do Paran, onde felizmente despertou o interesse dos dirigentes em avaliar, minimizar e até resolvê-lo, A este fato adiciona-se não só a boa vontade da promotoria do meio ambiente local como o sério empenho do sindicato dos cemitérios em manter um alto nível de segurança ambiental em prol da saúde pública.


Moderador20:28:36
elma pergunta: Os problemas maiores de contaminação são os metais pesados, ou doenças que podem ser transmitidas?


Moderador20:29:49
chapirous pergunta: Existe algum problema parecido quando se trata das cinzas de alguém que foi cremado??


Lezíro20:30:38
elma: Não só acredito ser importante como vital estratégico, vital e imprescindível. O monitoramento hidrogeológico á semelhança do monitoramento hidroquímico dos mananciais é o principal recurso que nós técnicos temos de vigilância da manutenção de portabilidade da água. No caso dos cemitérios dado o seu potencial infectante tal monitoramento é primordial e imprescindível.


Lezíro20:31:09
LUCIANO: Sim. é possível e tal fato é comprovado desde longa data.


Moderador20:31:52
eduardo pergunta: QUAL O RAIO DE POSSÍVEL CONTAMINAÇÃO? ( EM RELAÇÃO A DISTÂNCIA DOS CEMITÉRIOS)


Moderador20:32:22
elma pergunta: O que pode ser feito para descontaminação do lençol freático, após a contaminação?


Moderador20:32:33
chapirous pergunta: Há quanto tempo se sabe desse fato???


Moderador20:34:28
Arnaldo pergunta: Professor, o que acha desse descaso dos cemitérios com relação a esse problema?


Lezíro20:34:51
elma: Sob o ponto de vista da hidrogeologia ambiental a contaminação por agentes patogênicos é prioritária dada a grande velocidade de sua disseminação, infecções conseqüências danosas à saúde humana. A poluição por metais pesados não deixa de ser angustiante, porém como tem um efeito cumulativo no organismo humano e um período longo para fazer sentir seus efeitos pode ser secundário quando comparado a microorganismos. Os metais pesados infelizmente fazem parte do cotidiano da água potável disponível para a população devido aos impactos industriais da vida moderna superimpostos aos mananciais.


Lezíro20:37:32
chapirous: A princípio as cinzas residuais da cremação de um cadáver sempre executada em temperaturas na faixa de 700 a 1.200 graus elimina as possibilidades de sobrevivência de quaisquer microorganismos conhecidos. Chamo sua atenção para o fato de que cinzas de um cadáver que em vida foi submetida a radioterapia poderão apresentar índices de atividade elevados.


Moderador20:39:39
Anônimo3 pergunta: Esse "chororô" sobre cemitérios não é uma maneira de influenciar as pessoas para a cremação?


Moderador20:39:59
elma pergunta: Porque acha que não existe interesse em se criar uma legislação específica federal para cemitérios? Falta vontade política?


Moderador20:40:36
Tadeu pergunta: Então... o senhor sugere a cremar os mortos??


Lezíro20:40:42
eduardo: Como o meio geológico é extremamente variável de local para local não podemos falar em um raio de proteção ou de segurança ambiental. Falamos sempre em uma faixa a qual varia até 30 metros da zona de sepultamento. Em caso de contaminação pelo lençol freático a situação fica mais grave ainda podendo atingir quilômetros de distância ao longo do tempo. Daí a nossa preocupação em propor a utilização de substâncias oxidantes poderosas, tanto para garantir a decomposiçaºo segura como para neutralizar o líquido resultante da decomposição chamado necrochorume.


Moderador20:42:37
Bernard pergunta: Vi nos Estados Unidos descontaminação com uma solução à base de bactérias (biodigestoras de matéria orgânica), inclusive em esgotos. O Dr. Leziro tem conhecimento desse método? Seria possível 'lavar' o interior dos túmulos com essa solução de bactérias que já estão na natureza?


Lezíro20:42:40
elma: DEntre os procedimentos de remediação do subsolo o mais efetivo é a utilização de uma solução aquosa de ácido peracético ou água oxigenada 40 60 volumes diretamente no subsolo via poços de monitoramento ou sondagens atrado.


Moderador20:42:45
TZARA pergunta: Tem conhecimento de casos de poluição em Porto Alegre-RS?


Lezíro20:44:55
chapirous: Os registros históricos mostram que na Europa sabe-se disso desde a idade média. No Brasil, vimos nos manifestando desde os anos 70, tendo inclusive colaborado na preparo e homologação da única norma técnica específica de cemitérios em nível mundial, porém por várias razões algo esquecida por quem de direito.


Lezíro20:47:22
Arnaldo: A minha opinião pessoal no descaso do problema , sem ser radical, porém como profissional de meio ambiente extremamente preocupado com as conseqüências a curto, médio e longo prazo considero a omissão de quem de direito um verdadeiro crime de lesa humanidade e em especial para o nosso povo sempre sofrido, sempre esquecido e nunca ouvido.


Moderador20:47:48
EU sugere: Uma recomendação simples é o fornecimento dos cadáveres para faculdades de Medicina que contrariamente a que eu curso se apresentam carentes de tal matéria prima.


Moderador20:48:08
William pergunta: Mas alguém já foi infectado ou morreu, por causa de tal problema. E como?


Lezíro20:51:36
Anônimo3: Sinceramente como pesquisador no assunto nos últimos 30 anos e sem nunca ter pensado em auferir lucros com os conhecimento adquiridos os quais reputo de pertencer a humanidade possa lhe diz


Moderador20:54:13
Julio pergunta: Será que as doenças que estão surgindo e moléstias novas têm ligação com esse tipo de contaminação?


Lezíro20:54:35
elma: Muito boa essa sua colocação. Estamos adentrando o século 21 que como todos sabem é o do meio ambiente e onde teremos sérios problemas de abastecimento de água potável. Basicamente, reputo ainda a não existência de uma lei federal, tirando de lado a falta de interesse dos políticos, há uma deficiência muito séria na educação ambiental do povo e há uma conscientização maior dos problemas que um cemitério poderá acarretar.


Moderador20:57:18
EU1 pergunta: Quais seriam efetivamente as conseqüências negativas, na razão da saúde pública, para tal tipo de poluição visto se dar esta por um processo natural?


Lezíro20:57:19
Tadeu: Posso até sugerir com uma solução atual. Porém, há que se considerar determinadas facetas locais: desejo do morto ainda vivo ou de sua família em dar tal destino a seu corpo; o seu credo religioso; a disponibilidade de cemitérios tradicionais; uma avaliação da possibilidade sepultadamente em cemitérios verticais e se o falecido foi acometido por doenças infecto contagiosas que mereçam um cuidado especial.


Moderador20:59:15
Catarina pergunta: Os túmulos de parede não resolveriam este problema?


Lezíro21:02:54
Bernard: Quero lembrá-lo de que uma solução potencialmente interessante para a América do Norte ou Europa no hemisfério norte podem não ser válida para o hemisfério sul, onde estamos localizados. Recentemente, a CETESB elaborou uma norma técnica sobre a utilização de microorganismos dna despoluição do solo. Como estamos em região de solo tropical espesso e com uma fauna e flora microscópica muito diversificada e passível de sofre mutações a referida norma faz ressalvas a tal utilização até que o conhecimento específico seja aprimorado. Nos EUA como você citou já é comum utilizar bactéria modificadas para digerir esgotos. No Brasil, há aproximadamente 5 anos, houve uma tentativa de introduzir tal metodologia, a qual invalidou-se diante de uma aplicação desastrosa no Largo do Ibirapuera.


Moderador21:03:13
Pin pergunta: Quanto tempo demora para um cadáver se decompor?


Moderador21:03:59
Georgia pergunta: Que tipo de doenças esse resíduo pode nos causar?


Lezíro21:04:16
TZARA: Ao longo da pesquisa que conduzimos durante os últimos 30 anos tivemos oportunidade de verificar problemas ambientais em cemitérios municipais da capital gaúcha.


Moderador21:04:43
EduardoMS pergunta: Professor, como ficamos cemitérios pelo vasto interior do Brasil em que sua grande maioria não possuem covas concretadas??


Lezíro21:06:52
EU: Sua sugestão é boa até certo ponto, pois dado a taxa de mortandade diante da taxa de demanda de cadáveres pelas escolas de medicina, sendo que a oferta sempre será maior que a procura, sobrarão corpos e aí pergunto eu o que fazer com eles? Será que as famílias dos falecidos concordarão de boa vontade com tal doação, visto que a simples doação de órgãos já é tão problemática .


Lezíro21:10:39
William: Os registros históricos são claros em tal evento, em especial no século 17, 18, 19 no Brasil nunca houve uma pesquisa séria facilitada em termos de obtenção de dados não manipulados para podermos ser mais enfáticos. Qualitativamente é do conhecimento médico que um agente patogênica pode levar a óbito e até epidemias. (tifo , hepatite A desistiria bacilar etc) NO Brasil, como diz o dito popular'" Só se levanta do barco quando a água molha o traseiro".


Lezíro21:12:49
Júlio: Não sou médico para lhe dar uma resposta mais precisa, porém gostaria de lembra-lo de que a reicindência de moléstias ditas erradicadas do País vêm surgindo novamente. E sintomaticamente todas veiculadas por água contaminada.


Lezíro21:16:47
EU1: Uma coisa é você considerar que a decomposição é um processo natural. Outras coisa são considerarmos: extravasamento do necrochorume rico em microorganismos e metais pesados, capacidade de depuração do solo nem sempre efetiva em função de sua constituição minaralógica. Lençol freático raso na vertical dos cemitérios facilitando o ingresso e a disseminação dos vetores indesejáveis na circulação das águas subterrâneas. Deveremos sempre ser criteriosos nos curiosidade de implantação, construção e operação de cemitérios, como fazemos por exemplo, com os aterros sanitários e aterros hospitalares.


Lezíro21:18:25
Catarina: Acredito que você esteja se referindo aos columbários e cemitérios verticais. Neste caso, vale as observações feitas anteriormente com relação à impermeabilização do jazigo e também uma drenagem eficiente dos gases funerários.


Lezíro21:19:45
Pin: Considerando um cadáver adulto, independente de sexo e raça e idade com peso médio de 70 quilos a decomposição até chamada de ossos limpos demandará um período aproximado de dois anos em meio.


Lezíro21:23:36
Georgia: Temos dois tipos de doenças a considerar. Um grupo de doenças causadas pela ingestão inadvertida de água contendo substâncias tóxica (metais pesados etc) em geral afetando o sistema neurológico. O outro grupo se refere a contaminação por microorganismo vírus e bactérias patogênicas, podendo causar moléstias infectocontagiosas como a febre partifóide, a disenteria bacilar, a hepatite A etc.


Lezíro21:26:38
EduardoMS: Felizmente, dependendo da estrutura geológica de cada local condicionando capacidades de depuraçºao natural elevadas e lençóis freáticos mais profundos (abaixo dos 5 metros) até o processo de sepultamento mais simples inumação( sepultamento direto no solo) não trazem problemas.


Lezíro21:29:33
EduardoMS: Completando... Cemitérios com jazigos até concretados cujas características construtivas ou geológicas inadequadas podem ser problemáticas. Daí sermos tão insistentes em alertar para medidas se segurança ambiental, aparentemente, rigorosas. Você tem razão quando falado problema nacional pois se o problema existe na ditas grande cidades imagine o que acontece nos cantões dos Brasil.


Lezíro21:32:22
Professor Lezíro: Agradecendo a atenção de todos e a oportunidade que me foi concedida de ventilar o problema, vou me despedindo lembrando um ditado comu8m a nós geólogos: " O passado é a chave do Presente. E o presente é a chave de futuro! " Meditem no seguinte aspecto descaso para tal problema será uma herança desastrosa para os nossos descendentes.
 
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