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Chat com Contardo Calligaris
(8/5/2009)


Moderador 11:00:10
Contardo Calligaris
Psicanalista, doutor em psicologia clínica, escritor e colunista, Contardo Calligaris nasceu em 1948, em Milão, na Itália. Com toda a experiência em escrever colunas para o jornal Folha de S.Paulo, Contardo estreou recentemente na literatura com a ficção O Conto do Amor, com referências autobiográficas, e nos palcos com a peça O Homem da Tarja Preta.

Dirigido por Bete Coelho, o monólogo mostra um pai de família que renuncia ao dever conjugal para, durante a madrugada, se travestir de prostituta e se entregar a um bate-papo da Internet.

O texto foi escrito especialmente para o ator Ricardo Bittencourt e, segundo Contardo, cruza com uma questão antiga, que vinha crescendo ao longo de 35 anos dedicados a atividade de psicanalista. “Ser homem não é mais fácil do que ser mulher; a masculinidade é, para os próprios homens, um drama, pois ela é, ao mesmo tempo, uma obrigação (seja homem!) e um enigma (tudo bem, mas como?)”, explica.

Serviço: O Homem da Tarja Preta - as apresentações acontecem toda quinta e sexta, às 21h, no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, dentro do Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073, São Paulo.

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Moderador 16:33:40
Marina Dovir diz: Contardo, gosto muito de ler suas crônicas e colunas. Ainda não assisti à peça, mas gostaria de saber sobre o que você fala nela. A tarja preta, nesse caso, é uma questão de medicamento ou de pornografia?


Moderador 16:34:40
Roberto, de Curitiba diz: O Ricardo Bittencourt é uma força da natureza. Como surgiu a idéia de chamá-lo para a peça?


contardo calligaris 16:37:21
Marina, é a tarja preta da censura, sobre uma boa parte da sexualidade masculina e do modo masculino de viver: as fantasias, em particular. Fantasias de todo tipo, a começar pela eróticas, mas não só: heróicas, grandiosas etc.


contardo calligaris 16:38:00
Roberto, na verdade foi com ele que a coisa começou. Foi ele, numa saída do Oficina, que me pediu, assim conversando, um monólogo.


Moderador 16:38:14
Geórgia Fabiola, de Cuiaba/MT diz: GOSTARIA DE SABER SUA OPINIÃO SOBRE OS SITES DE RELACIONAMENTOS, E COMO ELES VÊM INFLUENCIANDO AS RELAÇÕES ATUALMENTE.


Moderador 16:38:50
stadium diz: É sua primeira aventura no teatro. Porque não escreveu algo antes? O que você sentiu para que resolvesse escrever uma peça só agora ?


contardo calligaris 16:40:02
Geórgia, acho que eles mudaram mesmo a maneira de se relacionar. Mas o mais importante é que fizeram com que ninguém se sentisse mais um monstro... pois é sempre possível encontrar outros que participam de suas orientações e fantasias.


contardo calligaris 16:40:47
Stadium, não sei...foi depois de meu romance, quando me senti pronto (imagino) para escrever ficção. A paixão pelo teatro é muito antiga, vem desde a infância. Está sendo uma experiência muito diferente de escrever ficção, de fato. Ouvir o que escrevi enunciado por alguém vivo, por um ator, é muito diferente de (se) ler.


Moderador 16:41:44
paquetá diz: Como você tira proveito de sua experiência na psicanálise para escrever uma ficção? Há histórias de pacientes em que você se baseia, por exemplo?


contardo calligaris 16:42:57
Paquetá, sem dúvida. As histórias dos pacientes passam a fazer parte da vida da gente, do repertório de vida da gente. É como para os atores. As personagens que eles encarnam se tornam um pouco eles mesmos. Para os terapeutas também é assim.


Moderador 16:43:15
Dreca diz: Contardo, as pessoas precisam realmente usar esse artifício da internet, dessa coisa impessoal, para colocar as fantasias pra fora?


contardo calligaris 16:44:23
Dreca, porque esse "anonimato" permite enganar a vergonha, a censura e até o nojo, em certos casos. É mais fácil viver uma fantasia extrema num chat do que na realidade, e isso vale especialmente para as fantasias que podem obcecar alguém sem que ele nunca tenha coragem de vivê-las.


Moderador 16:45:35
Frei diz: Porque afinal somos tão pudicos? Você acha que isso ainda vai mudar? Vamos conseguir extravasar melhor nosso eu verdadeiro, nossas vontades verdadeiras?


Moderador 16:46:43
Dreca diz: Mas isso é saudável? Não chega a hora em que entramos em conflito?


contardo calligaris 16:46:46
Frei, bom, mudou muito, viu? Nos últimos 30 anos e mais, mudou pra caramba... Acho que vamos, sim, poder fantasiar mais... até inventar fantasias que nem temos.


contardo calligaris 16:47:29
Dreca, eu não sei bem o que é saudável... E uma boa dose de conflito faz parte da "normalidade" humana. Sem conflito seríamos legumes... Ou seja, Dreca, a vida seria muito desinteressante.


Moderador 16:48:42
ana diz: Calligaris, essa peça foi escrita inspirado em alguém que você conhece?


contardo calligaris 16:49:42
Ana, foi escrita inspirada em dezenas de pessoas que conheci ou conheço, sim. Centenas, deveria dizer. Depois de 35 anos de clínica...


Moderador 16:50:11
João diz: Porque escolheu um tema tão polêmico como este para iniciar sua carreira no teatro?


contardo calligaris 16:50:34
Ana, as fantasias de swing, por exemplo, foram o objeto de minha tese de doutorado, quando ainda morava na França.


contardo calligaris 16:51:45
João, porque só vale a pena fazer teatro, para mim, se a experiência do espectador for notavelmente diferente da que seria proporcionada por um ensaio ou mesmo uma história que a gente lê tranquilo, em casa. O teatro, para mim, deve usar o impacto, a chacoalhada que produz um ator vivo, lá diante de nós.


Moderador 16:52:59
João diz: Por que este texto foi escrito especialmente para o ator Ricardo Bittencourt?


contardo calligaris 16:54:01
João, Por acaso. Conheci Ricardo na saída do Oficina, e ficamos conversando em baixo do Minhocão, em SP, até às 3 da madrugada. Foi quando me pediu um texto...


contardo calligaris 16:54:46
Claro, João, que na atuação nos "Sertões", que eu acabava de assistir, eu tinha achado Ricardo notável.


Moderador 16:55:05
Larissa, de Santo André diz: Boa tarde, Contardo, tudo bem? Queria aproveitar que você citou o Swing. Que dados e histórias interessantes você descobriu nesse doutorado? Também estou fazendo um trabalho sobre...


contardo calligaris 16:56:57
Larissa, meu Deus, foi a partir de um caso de despersonalização de uma mulher, quando o marido parou de praticar swing com ela. Aí prestei atenção a outros casos e me interessei pelos lugares públicos e privados onde o grosso do swing acontecia na Paris dos anos 80.


Moderador 16:57:16
TP diz: Nas salas de bate papo há muitos homens que se fazem passar por mulheres apenas para terem atenção. Isso não seria um sintoma de depressão ou alguma doença psiquica?


contardo calligaris 16:58:14
TP, não acho. Até porque a gente sempre se faz passar pelo que a gente não é. Tanto na internet, como na vida dita "real"... Não faço uma grande diferença entre real e virtual. Os amores são sempre virtuais...


Moderador 16:58:27
line diz: Porque os homens confundem liberdade com facilidade?


contardo calligaris 16:59:57
line, não estou convencido que seja sempre o caso. Em matéria sexual, por exemplo, liberdade é, em geral, dificuldade... Pergunte para qualquer homossexual que "saiu do armário".


Moderador 17:00:29
robson diz: Você tem idéia de quantos mil ou milhões de homens, assim como eu, vive assim?


contardo calligaris 17:01:11
Robson, assim como?


Moderador 17:01:27
Buba diz: Você definiu em uma frase a complexidade de ser homem. E a mulher? Como você enxerga a mulher e os dilemas que elas carregam?


Moderador 17:01:35
fã de brasília diz: Contardo, gostaria que você falasse um pouco sobre se a paixão é inexistente no casamento de longa data.


contardo calligaris 17:02:45
Buba, claro que é impossível responder num chat. Mas o fato é que a transformação da mulher nos últimos 30 anos alimentou estantes e estantes de livros.


Moderador 17:03:22
Buba diz: O que você quis dizer com os amores são sempre virtuais? O virtual nem sempre é real? Vivemos os relacionamentos como se fossem fantasias?


contardo calligaris 17:03:43
fã de Brasília, eu acho que a paixão pode perfeitamente continuar num casamento de longa data. Mas não é de graça. A paixão e o desejo nunca são garantidos, nem naturais, é preciso alimentá-los...


contardo calligaris 17:04:48
Buba, claro. A gente idealiza quem a gente ama, por exemplo. E deseja alguém que geralmente é transformado pela gente em manequim que encarregamos de vestir nossas fantasias...


Moderador 17:05:32
TP diz: Buscar aventuras na internet é uma forma de escapar da monogamia? Quando percebo que ficar muito tempo na internet com fantasias já extrapolou um limite aceitável?


Moderador 17:06:43
Dan diz: Quanto de autobiografia e ficção tem em "O Conto do Amor"?


contardo calligaris 17:06:53
TP, isso na verdade quem pode decidir é o parceiro ou a parceira. Ele ou ela podem pensar que na internet o sujeito inventa fantasias que alimentam o desejo que ele continua sentindo por sua parceira.


contardo calligaris 17:07:17
Dan, o primeiro capítulo é inteiramente e detalhadamente autobiográfico. E só. Mas, claro, Dan, é o ponto de partida de toda a história.


Moderador 17:07:34
josi diz: Boa tarde Contardo, é possível um homem amar uma mulher e sentir nojo de se envolver sexualmente?


contardo calligaris 17:08:51
Josi, nesta altura, tendo a pensar que tudo é possível. Mas esse caso que você menciona é possível e relativamente frequente. O objeto de amor, para muitos, é intocável. E ficam assim, entre a mãe e a prostituta, por exemplo, separadas.

Continua